É pouco mais de meio-dia de um meio de semana qualquer. Dia frio, com os costumes trocados. Almoço em casa, perto de meu filho. O normal é sair de manhã e voltar à noite, bem noite. Deitado na cama, observo o moleque dormir tranqüilo depois de ter virado a noite acordado. Literalmente, é o sono dos puros. Eu? Carrego o cansaço dos adultos.

 O curumim há semanas já consegue virar a cabeça de um lado para outro. Acho que vai ser mais esperto que o índio velho, que nasceu de oito meses, foi parar na incubadora para não morrer e ainda hoje é lerdinho.

Admiro a negritude de seu cabelo e percebo, pela primeira vez, que há um redemoinho na cabeça do menino. É parecido com aquelas fotos aéreas de furacão, que mostra como o vento se espalha pelo mar.

Com um dedo e sem tocá-lo – a mãe me esfola se acordar o guri – acompanho e desenho no ar o furacão no cabelo do indiozinho. Faço isso várias vezes, mostro o redemoinho para a índia velha Zanny, rio, é março, choveu a manhã toda e o que tem se me atraso um pouco para chegar no trabalho?

Grande coisa a descoberta do furacão? Não sei. Só tenho certeza que agora sei como é ser um pai bobo, desses que se encanta com quase tudo o que o filho traz de novidade para a nossa vida.