Parece que todo mundo inventou de engravidar ao mesmo tempo. Quando vou ao supermercado, fico assustado com o tanto de mulher grávida que passa entre as gôndolas. Não há restrição. São de todas as idades e todos os tamanhos. Será que esse povo não sabe que o mundo está em crise, que daqui a alguns anos faltará água, comida e emprego para tanta gente? O pior é quando passam aqueles casais com dois, três filhos no chão e um na barriga. É um povinho irresponsável a super-povoar o mundo e gastar os recursos naturais que meu filho deveria, por direito indígena, usufruir sem nenhuma preocupação deste tipo. É tanta gente grávida que até a ante-sala do obstetra da mãe do indiozinho vive lotada. A mais de cem pilas cada consulta, dá para imaginar que escolhi mesmo a profissão errada. Culpa da minha mãe, que nunca me estimulou a ser médico. Anteontem, ao chegar naquela passarela de mulheres gestantes e suas crianças de colo ou aprendendo a andar, pensei e perguntei à atendente: a minha grávida tem preferência? Claro que não foi a resposta que veio no sorriso da moça. Afinal, o que poderia eu esperar? Tratamento diferenciado apenas por ser o indiozinho, futuro herdeiro da reserva indígena Raposa-Serra do Sol? Nada. Aqui não tem vez, vai pra fila e pede pra esperar, 01.