Dizem que o indiozinho parece comigo. Deve ser o sangue forte do índio velho. Mas também pode ser que não. Afinal, sempre há quem pergunte da índia Zanny se ela é minha irmã. Isso pode ser um sinal de que somos semelhantemente bonitos ou feios. Na dúvida e por conta de uma boa auto-estima, fico com a hipótese da beleza. Quando elogiam o charme do moleque, como o gentleman que sou, digo que puxou à mãe. Assim, qualquer coisa, a responsável é ela.

Mas retornemos: o moleque parece comigo fisicamente. Já no humor, é a cara da mãe. Afinal, só a índia velha para acordar sorrindo todos os dias. E o neném tem essa mania também. Começa a se mexer, faz uns barulhos estranhos, pisca e ao ver um dos pais ou a irmã, abre o sorriso banguela e o olhinho puxado fica ainda mais japonês que o normal.

Aliás, o curumim tem um bonezinho que deixa ele com a cara de um mafioso vietnamita. Ok, para não parecer preconceituoso, mafioso asiático, daqueles que contrabandeiam preciosidades históricas, fumam ópio, torturam seus inimigos e compram presentes caros para seus filhos e amantes.  

P.S.: Ainda bem que não levo à sério a teoria do “pense-que-o-universo-trará-isso-para-você” do livro O Segredo. Já pensou se o moleque vira asiático, compra um boné, transforma-se no maior mafioso do Vietnã e tem quem enfrentar os mocinhos dos filmes de Hollywood que vão encará-lo para salvar o mundo?

Vida de pai não é fácil. Pelo menos a minha. Trabalho como um louco para comprar as coisas necessárias e supérfluas no lar e assim garantir a estabilidade da maloca Borges. É um esquema mais ou menos assim: grana que entra – coisa a comprar/pagar – grana que vai embora. É quase uma teoria funcionalista: eu cobro e você paga, grita o mundo no meu ouvido.

 Em março, por exemplo, chegaram os carnês do IPTU e corri atrás de pagar o IPVA. Saiu muito dinheiro do cofrinho. Quer dizer, não é que seja muuiiiiiitoooo dinheiro, mas para um índio pobre, sem parentes importantes, latino-americano vindo do interior e tal, é sim.

É obvio que quando reclamo dos impostos, meus amigos brancos e negros dizem: deixa a cidade, volta pra aldeia, vende o carro e compra um cavalo ou uma bicicleta. O mundo se resolve assim, facim, facim. Mas, como já foi dito por aqui mesmo, ter sido criado boa parte da vida na cidade deixou este índio velho mal acostumado.

Eu, sinceramente, não ia gostar de ficar todo dia na roça ou então no tanque de peixes, lutando pela geração de renda sustentável. Não. Eu sou um índio ocidentalizado. Gosto de ver TV até tarde, curto ficar no condicionador de ar, odeio pegar sol, gosto de pop-rock e me amarro em fazer compras na feira, sentindo o cheiro das verduras, legumes e frutas já colhidas.

Quer dizer, o problema não são os impostos. Afinal, sendo funcionário do Estado, sei que é deles que sai o meu mísero salário. A questão é que a gente não vê muito resultado além disso. Acho que vou sugerir um projeto de lei ao deputado/senador que recebeu meu voto: em vez de pagar taxas e mais taxas, o contribuinte poderia trocá-las pela compra de leite para filhos recém-nascidos. Pelo menos veríamos o resultado na hora, bem à nossa frente, sorrindo e pedindo colo.

É pouco mais de meio-dia de um meio de semana qualquer. Dia frio, com os costumes trocados. Almoço em casa, perto de meu filho. O normal é sair de manhã e voltar à noite, bem noite. Deitado na cama, observo o moleque dormir tranqüilo depois de ter virado a noite acordado. Literalmente, é o sono dos puros. Eu? Carrego o cansaço dos adultos.

 O curumim há semanas já consegue virar a cabeça de um lado para outro. Acho que vai ser mais esperto que o índio velho, que nasceu de oito meses, foi parar na incubadora para não morrer e ainda hoje é lerdinho.

Admiro a negritude de seu cabelo e percebo, pela primeira vez, que há um redemoinho na cabeça do menino. É parecido com aquelas fotos aéreas de furacão, que mostra como o vento se espalha pelo mar.

Com um dedo e sem tocá-lo – a mãe me esfola se acordar o guri – acompanho e desenho no ar o furacão no cabelo do indiozinho. Faço isso várias vezes, mostro o redemoinho para a índia velha Zanny, rio, é março, choveu a manhã toda e o que tem se me atraso um pouco para chegar no trabalho?

Grande coisa a descoberta do furacão? Não sei. Só tenho certeza que agora sei como é ser um pai bobo, desses que se encanta com quase tudo o que o filho traz de novidade para a nossa vida.

Em alguns dias da semanan trabalho das 8h às 23h. O trampo da noite é uma atividade de docência numa faculdade particular. As outras atividades são relacionadas com assessoria de imprensa.

Cansa? Sim, e muito.  Ontem, por exemplo, me arrastei o dia inteiro. Quando cheguei em casa, o moleque estava dormindo tranquilo em seu berço. Passou uma noite relativamente calma e hoje, depois de mamar ao amanhecer,  veio para a cama e ficou ao meu lado, falando na língua dos bebês coisas incompreensíveis para um adulto sonolento, ainda cansado e extasiado com aqueles sons.

São esses pequenos momentos (em comparação com as horas que o indiozinho passa com a mãe) que estão me mantendo na ativa nos últimos dois meses.  Afinal, nada como cheirar umas 15 vezes o cangote de um curumim bonito de manhã para sair disposto para a caçada diária.

Sim. Às vezes ele dá uns gritos de madrugada e me acorda.

Sim. Ele não fala comigo e quando brinca um pouco, não duvida em me trocar pelas peitchucas da mãe.

Sim. Pais são fisicamente inuteis nesta fase na vida para os bebês. Quando muito, fazemos uma média com as mamães.

Sim. Sou um vulto para ele. O vulto que faz arrotar e que às vezes ele puxa o cabelo.

Sim. Com tudo isso contra mim, como ficar depressivo com a minha mísera situação paterna quando o moleque abre o bocão para bocejar no meio da tarde e eu tenho a sorte de estar presente?

como não me encantar com uma boca tão linda?

Por que o choro da criança durante os três meses que duram as cólicas dói tanto nos pais?

Com apenas 45 dias de nascido, o indiozinho já ostenta mais de cinco quilos de charme e beleza. Tudo na base do leite da mamis dele. A dona Zanny, por sua vez, caminha no caminho contrário. Se o curumim engorda, ela vai secando e ganhando olheiras de vários matizes.

A coitada da Zanny nunca foi de ir para festas. Soubesse o que vinha pela frente, teria aproveitado mais as baladas. Hoje, depois que o exigente índio nasceu, vive nas embaladas.

É que o moleque ainda não regulou o sono. Nas primeiras semanas, acordava religiosamente às 5h, 6h, para perturbar o juízo da mãe. Agora, os intervalos estão aumentando, mas ainda costuma pedir atenção (leia-se: leite) nas madrugadas.

O bom é que funciona como um despertador. O problema é quando o despertador acerta de funcionar no domingo, único dia de folga do índio velho.

Definitivamente, o chefe da aldeia agora é o indiozinho. Armado com os seus pulmões novinhos e a imensa força que um bebê pode ter, dominou geral na área.

 Como disse a pediatra, estamos aqui para servi-lo. E como servimos. A mãe, índia velha Zanny, carrega, conversa, amamenta, acaricia, faz tudo na hora que ele exige. Isso mesmo. Bebês não pedem, exigem no idioma deles. Eu, índio velho, vou à caça todos os dias e faço artesanato para vender na cidade dos brancos. Meu sonho de consumo não é mais um colar de contas, é um arco com flechas laser. Guerra nas estrelas? Que nada! Caçada nas estrelas é o futuro grande sucesso do mundo do entretenimento pemón.  

O grande chefe já passou dos cinco quilos. Ostenta triunfante um senhor par de coxas que dá inveja só de ver. O cabelo negro (azabache, como se diz na Venezuela) continua estiloso. Não precisa pentear pois a caída é automática.  O moleque que manda na minha aldeia e estendeu esse reinado para o meu coração/corpo/alma tem lindos olhos castanho-claros. Eu sempre quis olhos assim mas não dei sorte. Os dele, bem-aventurado, puxaram à índia velha Zanny. 

 O indiozinho agora tem companhia. Na semana passada nasceu a prima Ana Vitória, filha do Natan e da Íris. A dupla é dona do sítio onde a Zanny foi tomar banho no domingo pré-parto para acelerar o processo de nascimento. Os dois novos habitantes de Boa Vista encontraram-se por acaso na ante-sala da pediatra, bateram umas fotinhas juntinhos, trocaram resmungos infantis e marcaram de qualquer dia encontrarem-se por aí. Ah, sim. Os pais vão junto. Afinal, alguém tem que dirigir os carros-de-boi. 

Meu indiozinho completou um mês de nascido no domingo. De 10 de janeiro a 10 de fevereiro, a vida mudou por estas bandas do Norte. Ele mesmo, o bebê, já mudou. Ganhou mais peso, já acompanha os movimentos das mãos dos pais e suas perninhas viraram pernocas.

Este índio velho confessa: ao chegar da caçada diária, larga acelerado flechas, arco e tacape para dar um cheiro no caboclinho. Como brinco com os meus amigos, assumi meu lado bissexual e adoro esse machito que apareceu na minha vida.

Aliás, amar um homenzinho tão lindo é fácil. Assim como é fácil admitir que há coisas que um homem só faz pelos filhos: ajudar a trocar a fralda cheia de cocô a toda hora e sorrir depois, deixá-los ocupar o espaço na cama e achar necessário, fazer de tudo para que se sintam melhor do que nós mesmos.

 É óbvio que nem só de flores está feita esta etapa da vida. Quando ele chora e não consigo acalmá-lo, sinto-me um inútil. Quando ele sequer desvia o olhar do “vulto que dá leite”, como chamo a dona Zanny, para tentar descobrir onde está o “vulto que não dá leite” (eu), é um pouco frustrante. Só não é pior porque sei que essa é a função do pai nesta fase: ser assistente. Ou como se diz lá na minha cabana: eu sou o enfermeiro-chefe e a Zanny é a doutora que manda.  

Essa questão dos nomes rende discussões. Ao saberem que o nome de meu indiozinho seria Edgar, amigos, inimigos e desconhecidos começaram a tecer críticas à escolha.  

- Mas que coisa! Que vaidade, falta de imaginação! 

- Vai aleijar o menino! Põe o meu nome! 

- Colocar o nome do pai é fazer com ele carregue um peso cósmico muito grande. Tem que ver o carma que ele vai ter etc., etc.

 - Esse Edgar é um metido… 

- Já pensou em pôr o nome do pai? 

- O menino não merece o peso (negativo) de um nome desses…. 

Não adiantava falar que “Edgar” dele seria uma homenagem ao meu avô, Edgar Borges Ferreira, e não a mim. As pessoas insistiam em opinar sobre o nome como se o bebê fosse filho deles.

Entre piadas sinceras e críticas disfarçadas, o guri nasceu e lá fomos nós, eu e a Zanny, correndo no 15º dia após o nascimento para o cartório.  A mãe e o indiozinho ficaram no carro enquanto eu ia tentar agilizar o registro. Qualquer coisa, ela desceria apenas para assinar.  

- Mas não precisa da mãe para registrar. Basta o senhor, disse o rapaz do cartório.  

Zanny, que havia lido na cartilha do bebê que precisava sim, ficou um pouco meio assim, mas continuou no carro enquanto eu levava a sua identidade para completar o processo. 

- Escreva o nome do bebê, por favor. 

- Edgar Borges Ferreira Bisneto? Não pode. Tá na lei, tem que levar o prenome dos pais. A lei é a dos Registros Públicos. Sim, o senhor não pode colocar o nome do bisavô em seu filho.  

Bom, fazer o que se eu, que seria o Neto, não fiquei sendo por conta das leis da Venezuela.  

- Junior pode? 

- Minutinho. Pode sim. Pegue aqui, leia e assine. 

- Brasileiro naturalizado, não. Naturalizado é quem renuncia a sua cidadania original. Eu tenho dupla cidadania. Está na constituição. 

- Ah, mas o sistema não registra duas cidadanias.  

- Não precisa. Ponha só a brasileira que dá certo. É constitucional. 

- Hum, é verdade. Ok.  

Feliz e saltitante apresento, mais ou menos às 9h30, a certidão à mãe do indiozinho.  

- Isso não pode. Junior seria se fosse filho de teu avô. Tem que voltar lá e pedir para consertar. Como é que não pode ser bisneto dele e pode ser filho, blá, blá, blá? 

Diante de tais argumentos e a reprovação mortal do olhar materno, o que resta a um pobre índio senão irritar-se e prometer dar uma olhada na tal Lei dos Registros Públicos antes de voltar no cartório? Lei lida e relida umas cinco vezes, volto à tarde, peço para falar com uma das tabeliãs, que me encaminha para a tabeliã superior, que demora a chegar.  

- Boa tarde, senhor. Qual é o seu caso?, perguntou a jovem responsável.  

Expliquei sobre o Bisneto, falei sobre a lei não deixar clara nenhuma restrição, disse que uma lei da Venezuela não havia permitido que levasse o nome de meu avô, apresentei minha certidão de nascimento e perguntei: 

- Tem como alterar a dele? 

- Claro. Havíamos entendido que o senhor queria colocar Neto e isso não poderia, pois os avôs são o Adair e o Sebastião. Fulaninho (o mesmo que havia dito pela manhã que não podia), altere aqui, por favor.  

Minutos depois, Edgarzinho deixava de ser Junior para virar Bisneto. Ou seja, das 9h30 às quase 15h do dia 25 de janeiro, foi e deixou de ser filho do bisavô.  

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.